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100 coisas a fazer antes de chegar aos 100 anos!

Uma fusão de bucket list a atirar para o futuro com um grupo de memórias desgarradas do passado e um polvilhado aleatório de acontecimento do dia a dia.

100 coisas a fazer antes de chegar aos 100 anos!

Uma fusão de bucket list a atirar para o futuro com um grupo de memórias desgarradas do passado e um polvilhado aleatório de acontecimento do dia a dia.

Terá um swipe impacto na nossa autoestima? 📱🤔

João Eating the World!, 11.09.25

Bem sei que tenho andado ausente aqui deste espaço, cujas razões para tal se tem prendido entre questões de saúde, falta de tempo e uma inspiração a roçar o inexistente. Mas o pior de tudo é que, apesar da minha vontade de ficar a beber caipirinhas num resort tudo incluído a olhar para flamingos a voar no céu estrelado, uma pessoa tem de continuar a trabalhar e a ganhar dinheiro para estourar em bolachas waffle de chocolate da Mercadona (pronto, já estou a divagar...).

Como podem ter reparado, o título deste post remete para as dating apps, ou aplicações de encontros, na versão tuga da coisa. E a verdade é que estas dating apps são a questao central da minha dissertação de Mestrado em Saúde Pública (ENSP-UNL), onde estou a estudar a ligação entre as dating apps, a imagem corporal e a forma como nos sentimos connosco próprios - uma das razões para também não andar por estas bandas, porque tenho andado a ler dezenas de artigos sobre esta temática, que é verdadeiramente fascinante.

Agora um dos problemas de fazer ciência em Portugal, especialmente quando é através de questionários, é que precisamos de pessoas fofinhas que preencham esses questionários. E este post serve para isso, para pedinchar a vossa ajuda no preenchimento do questionário (100% anónimo e confidencial🔒), de forma a fazerem este pobre blogger uma pessoa mais feliz, e especialmente, menos stressada por não conseguir respostas suficientes para ter resultados minimamente robustos (link: https://lnkd.in/dvXNi4RY). 

Para participarem, apenas precisam de ter entre 18 e 49 anos (sim, as pessoas acima dos 49 também usam dating apps, mas esse será um estudo futuro), residir em Portugal e podem ser ou não utilizadores de dating apps (basicamente o que estou a fazer é comparar quem usa com quem não usa estas aplicações).

O questionário leva 5 minutos a preencher. E quando digo 5 minutos é verdadeiramente 5 minutos, não é aqueles 5 minutinhos do vosso tempo que se transformam em hora e meia e uma pessoa já está pronta para se atirar da janela apenas para acabar com o seu sofrimento!

Por isso, terão 5 minutos para me ajudar? Não leva mais do que isso, e se levar podem dar-me um latigazo (que talvez eu até goste cof cof)!

Agradeço, também, se puderem divulgar junto da vossa rede de contatos, e assim ficam com a vossa boa ação da semana realizada!

Muito obrigado pela vossa disponibilidade e colaboração, e espero que nos vejamos mais amiúde por aqui, especialmente porque tenho uma data de coisas giras para partilhar convosco! ❤

Vade Retro SATA(Nás)!

Ou a mais breve viagem de avião da história...

João Eating the World!, 23.03.25

Quando descobri uma viagem de ida e volta por 30 euros, pela SATA, para a ilha Terceira nos Açores, nem pensei duas vezes. Provavelmente deveria ter pensado um pouquinho melhor no assunto, porque apesar do voo estar baratíssimo, uma pessoa depois tem que ter dinheiro para pagar o hotel, e as refeições, e o aluguer do carro para se deslocar...mas como o voo até tinha incluído uma refeição ligeira, senti que umas coisas compensavam as outras, e também quantas vezes é que uma pessoa tem oportunidade de ir à Terceira? Afinal a única vez que tinha visitado a ilha fora há mais de 20 anos, por isso as minhas memórias já estavam para além de desatualizadas e fazia assim todo o sentido fazer a viagem. E foi isso que eu fiz. Ou melhor, foi isso que eu tentei fazer!

Chegado o dia da viagem, e após um ligeiro atraso na partida, eis que me vejo a sobrevoar os céus de Lisboa, rumo ao arquipélago dos Açores. Não tinham passado mais de 10 minutos quando o avião, em vez de seguir rumo ao oceano Atlântico, começa a fazer meia-volta, levando-me a duvidar se tinha havido uma reorganização do território que eu não me tivesse dado conta, e agora a Terceira ficasse no lago do Campo Grande. Mas não, visto que breves momentos depois é anunciado que devido a um problema técnico, que consistia em uma das portas do porão não ter ficado bem fechada, teríamos que voltar ao aeroporto de Lisboa. Naquele preciso instante comecei a entrar em pânico, a imaginar a minha mala em queda livre pelos céus da capital, sujeita a cair na cabeça de alguma alma azarada.... até que me lembrei que só tinha trazido bagagem de mão.

Aterrados em Lisboa, depois da mais breve viagem de avião da história, eis que começa todo o drama. Primeiro é-nos comunicado que iríamos voltar a viajar naquele avião, mas depois só que não, já que era preciso uma inspeção de pelo menos duas horas, o que não me fez muito sentido porque se o problema era uma porta da bagageira aberta, não era só fechar a mesma? Depois comunicam que vai haver um voo da TAP a voar para a Terceira no fim do dia e que poderão levar algumas das pessoas, mas não referem qual o critério de escolha! Sorteio? Cor dos olhos? Melhor sorriso para os hospedeiros? Caso fosse o preço do bilhete não teria qualquer hipótese de ser selecionado, tendo em conta os 30 euros que tinha pago. Depois de um bom tempo de espera começam a chamar pessoas, tipo bingo humano. Umas duas dezenas de pessoas arranjam bilhetes, as outras desgraçadas ficam ali sem saber bem o que se vai passar.

Mais tempo de espera. Mandam as pessoas fazer uma filinha sabe-se lá para que. Depois de toda a gente em fila dão ordem para irmos para a zona das bagagens, recolher as ditas cujas. Vai tudo ao monte, já que andar em filinha é coisa que se faz no máximo até ao quarto ano. Ficamos à espera que venham as bagagens que estavam no porão. Aparentemente não falta nenhuma, o que significa que não vai haver nenhum alerta CMTV sobre um chuva de cuecas e meias no Parque da Saúde. Esperamos mais um bocado. Ainda ninguém nos ofereceu um copo de água sequer. Já para não falar na refeição ligeira que tínhamos direito. Depois de mais um tempo de desespero, e já tendo passado em muito a hora de jantar, surge uma senhora a orientar-nos para um autocarro. Que íamos todos passar a noite no SANA Malhoa (valha-nos isso e não nos terem enfiado numa pensão daquelas onde se vai fazer o amor em quartos de hora). Alguém pergunta pelo jantar, afinal segundo a legislação a SATA teria que se responsabilizar em alimentar as pessoas para elas não desfalecerem. A senhora diz que o hotel não consegue disponibilizar jantar para tanta gente, por isso começa a distribuir uns papeizinhos com as indicações de como poderemos obter o reembolso do dinheiro que gastarmos no jantar, sendo que o teto máximo são 15 euros. Outra pessoa pergunta se haverão restaurantes abertos ao pé do hotel à hora que chegarmos. Pois que a senhora não sabe.

Depois de uma breve viagem de autocarro chegamos ao hotel. Os rececionistas fazem o melhor para despacharem a fila gigantesca que se forma, repleta de pessoas cansadas, com fome e com muita pouca vontade de sorrir. Informam que no dia a seguir poderemos usufruir do pequeno-almoço do hotel, que abre às 7, mas para termos atenção que o autocarro viria buscar-nos às 7.15 para nos levar ao aeroporto. Reviro os olhos por dentro já pensando na luta campal que será no momento em que as portas do restaurante abrirem. Quando recebo o cartão do quarto já são quase onze da noite. Mando vir umas pizzas para o quarto e entre chegarem e comer o relógio aproxima-se escandalosamente da uma da manhã.

Deito-me completamente estafado. Felizmente a cama é confortável, tal como o resto do quarto. Não vai ser difícil adormecer, mais complicado será acordar dali a meia dúzia de horas, mas pronto, o que tem de ser tem muita força. Antes de aterrar no mundo dos sonhos, um pensamento passa-me pela mente, que me faz franzir a testa. Tanta coisa e no fim não houve refeição ligeira da SATA para ninguém...

Hotel SANA Malhoa

Hospedar-me em 200 hotéis [2/200]

 

Copinho de Leite no Burguer King?

João Eating the World!, 21.03.25

Visitar mais de 100 países [4/100]

Se eu vos disser que bebi um copo de leite no Burguer King provavelmente vão achar que eu fumei qualquer erva aromática fora de prazo e comecei a alucinar. Ou que estou a armar-me em espertinho e afinal bebi um milkshake. Ou pior, que me tornei uma pessoa intragável e fiz um escândalo de todo o tamanho até me trocarem a Fanta de laranja por um 200 ml de leite meio gordo. Mas não, limitei-me a pedir um menu especial que vinha acompanhado de um copo de leite. E de tâmaras. E de chebakia.

Contextualizemos. Visitei Marrocos, mais especificamente Tânger, durante o Ramadão. Pelo facto do Islão se basear no calendário lunar, o Ramadão calha numa data diferente todos os anos, podendo durar entre 29 e 30 dias. Durante esse período os muçulmanos praticam um ritual de jejum, abstendo-se de comer, beber, fumar ou ter relações sexuais desde que o sol nasce até ao momento em que se põe.

Durante este período existem duas refeições-chave para quem está a jejuar: o Suhoor que é consumido antes do nascer do dia, e o Iftar (ou Ftour, termo mais utilizado em Marrocos), que permite quebrar o jejum depois do sol se por. E foi um menu especial de Ftour que encontrei no Burguer King por um preço muito, mas muito simpático.

Ftour Marrocos Burguer King

Por aproximadamente 7 euros tive direito a hambúrguer com bebida e batatas + um acompanhamento + um gelado + uma caixinha com tâmaras, chebakia (um doce à base de sésamo) e um copinho de leite.

Nunca na vida tinha pensado comer tal combinação no Burguer King, mas a verdade é que além do simbolismo existe uma vertente nutricional que simplesmente faz sentido. As tâmaras oferecem energia rápida, o leite hidrata e repõe nutrientes e a chebakia além de conferir um toque (extremamente) doce e festivo, concede imensas calorias. Por isso expectavelmente seriam as primeiras coisas a comer durante o Ftour, mas eu como bom turista desconhecedor comi no fim, já a rebolar de todo o resto da comida...

Por momentos quando pedi o menu pensei que poderia ser visto como uma ofensa cultural (hoje em dia nunca sabemos se inadvertidamente podemos ferir suscetibilidades), mas a jovem que me atendeu foi extremamente simpática. Lá consegui fazer o pedido com o meu francês rudimentar (sei dizer pain au chocolat e omelette du fromage e pouco mais) porque de árabe (por agora) não pesco nada (está na minha bucket list!) e no fim ainda recebi um voucher para um mês grátis de um serviço de streaming árabe. Confesso que no princípio não estava muito recetivo a ficar com tal oferenda, mas a moça desarmou-me com um sorriso e um "C'est gratuit".

Mal ela sabia que o meu problema não era tanto o preço, mas mais o medo do Henrique Feist saber que eu tinha vindo de férias para me meter no hotel a ver televisão e ainda ser achincalhado num qualquer podcast....

Ftour Burguer King Marrocos

 

 

I Wanna Destroy Festival da Canção

João Eating the World!, 09.03.25

Assistir à Eurovisão ao vivo [ainda não é desta]

Vá, vamos ser honestos. Independentemente do resultado do Festival da Canção, eu não iria assistir à Eurovisão ao vivo este ano, a não ser que o blogue ficasse famoso e eu ganhasse assim alto patrocínio para ir mandar postas de pescada sobre as atuações que por lá passassem. É que de outra forma o meu orçamento familiar não tem capacidade de comportar uma estadia na Suiça, mesmo que decidisse ir acampar no meio das montanhas e sobrevivesse à custa de sandes de atum trazidas de Portugal. Por isso NAPA, podem dormir descansados que não é por causa da vossa vitória que eu não vou lá acenar com uma bandeirinha tuga. É mesmo porque sou pobre.

Mas falemos dos fatídicos acontecimentos da final do Festival da Canção deste ano. Os NAPA ganharam com uma canção bonita. Se é canção para a Eurovisão, se não é, isso já são outros quinhentos, porque ao longo dos anos houve canções altamente eurovisivas com resultados péssimos e outras que até uma pessoa não dava nada por elas e ficaram muito bem qualificadas. Por isso, primeiro que tudo, parabéns NAPA e que façam um brilharete lá em Basileia.

Os NAPA receberam 10 pontos do voto do público (a segunda pontuação mais alta) o que mostra que as pessoas gostaram da canção. Claro que há sempre a teoria da conspiração que toda a Região Autónoma da Madeira votou em peso neles (os NAPA são de lá). Ora isso também não é crime nenhum, porque o público é livre de votar em quem gosta e em quem sente que o vai representar. Se as pessoas deviam votar em quem tem maior qualidade técnica? Talvez! Se as pessoas deviam votar em quem tem maior probabilidade de ter uma melhor pontuação na Eurovisão? Talvez! Se as pessoas são donas do seu dinheiro e votam em quem quiserem pelas razões que bem entenderem? Completamente!

Ora, presumo que tenha sido para balançar um pouco este voto público, por vezes mais apaixonado e menos técnico, que tenha sido instituído um voto do júri a valer 50% da pontuação final, apesar de, em caso de empate, o voto do público ser soberano. Mas é quando vamos ver o voto do júri que a porca torce o rabo.

Os 12 pontos do público foram para a Henka, que trouxe uma canção muito ao estilo da Bambie Thug em 2024 e a trazer algumas lembranças nostálgicas dos Lordi em 2006. Poderia não ser uma canção fácil de agradar ao estereótipo do ouvido português - afinal não era uma balada, nem um fado, nem sequer um pimba, mas sim uma combinação de electropop, rock industrial e  hyperpop - mas acabou por deixar a maioria dos votantes rendidos. Só que o júri não pareceu ficar apaixonado.

Os primeiros sinais de desgraça apareceram na semi-final, onde Henka foi escolhida para seguir em frente pelo público, e não pelo júri. Na votação final do júri o resultado foi desastroso. No polo oposto dos 12 pontos dados pelo público, Henka ficou com 0 pontos do júri. Não é que todos os júris regionais a tenham corrido a zero, mas a conversão final levou a que ficasse com esse desconsolador resultado. Coisa estranha porque se não foi convidada para participar, mas sim seleccionada, esperar-se-ia que a canção tivesse alguma qualidade logo à partida.

Pois bem, é verdade que se poderiam tecer longas considerações sobre as decisões tomadas pelo júri, mas a revolta não seria tão grande se não fossem os regionalismos que foram expresos nas votações. Vários júris deram a pontuação máxima a concorrentes da região pela qual estavam nomeados, muito provavelmente esquecendo-se de que serem nomeados por uma zona é ligeiramente diferente do que estarem a representar aquela região. Pode parecer apenas uma questão de semântica, mas é muito mais do que isso.

Novamente, todos sabemos que existem sempre questões políticas e geográficas e de afinidades neste tipo de concursos. Afinal somos todos seres humanos e por vezes não é fácil sermos completamente isentos. Mas um júri devia tentar ser o mais isento possível. Ou pelo menos não gritar aos ventos a sua falta de isenção.

E foi isso que a Bia Caboz, representante do júri da Região Autónoma da Madeira, fez. Talvez pela emoção do momento, talvez para encher chouriços e dar ali mais substrato à coisa, fez uma data de comentários enquanto ia atribuindo os votos. A cereja no topo do bolo foi dizer que, no momento de atribuir os 12 pontos, deixava de falar como porta-voz (do júri) e passava a falar com a voz do povo madeirense. Resultado: 12 pontos para os NAPA, banda madeirense. É que, e corrijam-me se estou errado, um júri não serve para falar com a voz do povo - para isso há o televoto - o júri é um conjunto de pessoas que conseguem fazer uma avaliação crítica o mais objetiva possível de forma a minimizar a subjetividade do gosto individual.

É uma porcaria - para não dizer uma palavra mais grosseira - quando em vez de sermos avaliados pelo nosso trabalho e talento, somos avaliados pelo nosso sexo, pela nossa expressão de género, pela nossa origem, pela nossa raça, etnia, orientação sexual, etc, etc, etc. E é uma porcaria ainda maior quando esse preconceito nos empurra para baixo, apenas por sermos quem somos. Mas o preconceito positivo também é uma porcaria muito grande. Principalmente para os outros - porque alguém foi priveligiado por uma característica que não devia entrar na análise -, mas também para nós, porque vamos ficar sempre com aquela dúvida existencial se realmente somos merecedores do local onde estamos.

Mas como na vida não podemos só encontrar problemas sem arranjar soluções, deixo aqui algumas sugestões para uma próxima edição do Festival da Canção:

  1. Refletir sobre o peso do voto do júri comparativamente com o do público. Visto que é o público que abre os cordões à bolsa, talvez o voto popular devesse valer entre 60 a 70%, ao contrários dos atuais 50%
  2. Acabar com o júri regional e trazer um júri global que seja representativo de várias áreas da indústria musical independentemente se são todos da Terceira ou de Mem Martins
  3. Trazer para a mesa, além do voto do júri e do público, o voto dos próprios concorrentes, onde cada um teria que votar nos preferidos entre os colegas

É verdade que o Festival da Canção é apenas o Festival da Canção, mas não nos podemos esquecer que além de usar dinheiros públicos deveria ser um reflexo da nossa forma de estar enquanto sociedade, onde a amizade e o sentimento de pertença pode ser expressado através do voto popular, mas onde o talento, a capacidade e o mérito deviam ter primazia no voto especializado.

 

Que mal te fiz eu, para não ter um piaçaba?

João Eating the World!, 03.02.25

Hospedar-me em 200 hotéis [1/200]

Existem perguntas a que um ser humano passa toda a sua vida a tentar responder. Qual é a razão para que viemos a este mundo? Será que existe uma entidade divina que olha por nós? Estaremos cada vez mais sós num mundo com cada vez mais pessoas? Quais são as diretrizes éticas pelas quais devo reger a minha conduta?

São todas questões extremamente pertinentes, e que muitas vezes nos podem arremesar para um caos existencialista que só se resolve com uma cura de sono e duas caixas e meia de alprazolam, mas a dúvida que me assola é muito mais profunda. Muito mais inquietante. Algo que me faz acordar durante a noite com o coração a bater desenfreadamente e a boca tão seca como um litão exposto ao sol por três dias. O que eu ainda não consegui perceber nestes meus 38 anos de vida é porque raio alguns hotéis não possuem piaçaba!

Não é o primeiro, não é o segundo, não é o terceiro hotel onde eu fico hospedado que não possui esta escovinha maravilhosa. E eu fico sem compreender se é o hotel que se preocupa em demasia com outras coisas, como as miniaturas de gel de banho e os pacotinhos com o kit de emergência para a costura, e se esqueçe do piaçaba, ou se na verdade não era suposto precisarmos de o usar e eu é que ando a fazer cocó errado este tempo todo.

Confesso que não faço ideia se existe um protocolo quando estamos a fazer o número 2, além de fechar a porta e não convidar mais ninguém para a casa-de-banho para evitar uma morte por intoxicação. Mas a verdade é que depois da descarga o meu vaso sanitário nunca fica imaculado, sendo que em casa preciso de dar uma boa esfregadala para ele ficar adequado para uma próxima utilização.

É verdade que quando não existe piaçaba, mas existe mangueirinha, uma pessoa remedeia-se, que dá uma mangueirada no rabo e outra na sanita, mas por vezes não é suficiente, especialmente quando as marcas de guerra ficam no fundo da sanita. Aí, usar-se a mangueirinha é basicamente chover no molhado. Agora há casos em que nem mangueirinha existe, e uma pessoa fica a pensar como raio é suposto higienizar o nosso trono de porcelana.

Já dei por mim a fazer autênticos contorcionismos com o chuveiro do duche, que exige que a bicha seja suficientemente comprimida para chegar à sanita, e que uma pessoa consiga ligar a torneira no momento exato em que está a apontar o jato de água para o local onde previamente estivemos sentados, já que de outra forma é meio caminho para se inundar a casa-de-banho. E claro que implica também que depois da lavagem uma pessoa volte a contorcer-se para fechar a torneira sem que tenha água arremessada para o tecto, para as paredes, para o espelho...

Mas com mangueirinha ou com o chuveiro do duche, continua a subsistir o problema das impressões intestinais pós-defeção. Alguns pensarão, ah deixa isso para a equipa de limpeza do hotel tratar. Pois bem, eu consigo viver com estranhos a julgarem-me pelos restos de ADN que deixo na cama, mas saber que um estranho pode estar a torcer o nariz com repulsa no momento em que levanta a tampa da sanita é demais para a minha sanidade mental. Por isso é que já dei por mim a fazer uma almofadinha de papel higiénico, a respirar fundo e a pensar que não vou tocar em nada que já não tivesse feito parte de mim, e zuca, enfio a mão dentro da sanita e uso a almofadinha de papel como se fosse uma esponja de limpeza. Sim, é possível que seja nojento. Sim, muito provavelmente está a contribuir para alimentar um qualquer trauma com que vou ter de lidar aos 80 anos. Mas não sei resolver de outra forma e não me parece prático andar com um piaçaba portátil na bagagem de mão.

É por isso que quando cheguei ao Marea Boutique Hotels em Sliema, o hotel onde fiquei em Malta, senti a minha alma a ser dilacerada. Podem-me julgar, mas sou pessoa de rabo tímido, e não consigo evacuar num avião. E se der para evitar, fazer na casa-de-banho do aeroporto também é algo que não gosto muito, porque uma pessoa sabe lá o que pode apanhar a sentar-se num sítio onde tanto cu já se roçou. Por isso quando cheguei ao hotel o meu intestino estava a gritar de desespero, e a primeira coisa que fiz quando entrei no quarto foi correr para a casa-de-banho. Se todo um alívio se apoderou do meu corpo enquanto outras coisas saíam, rapidamente ele foi substituído por pânico, porque não havia sinais de piaçaba. E pior, não havia mangueirinha e a distância entre o chuveiro e a sanita era demasiado grande.

Foi no momento em que já estava prestes a chorar baba e ranho, perguntando aos céus que mal tinha feito eu para não ter um piaçaba, quando de repente encontro o mesmo, escondido num cantinho, a tentar passar despercebido certamente para não ser utilizado. Fico com um sorriso gigante estampado no rosto. Afinal já não ia precisar de passar as férias todas a enfiar a mão dentro da sanita...

 

Marea Boutique Hotels - Sliema

 

DIE - Dark Immersive Experience ou Dark, Intense and Erotic?

João Eating the World!, 02.02.25

 Visitar 20 espetáculos interativos de terror [1/20]

Uma das minhas maiores virtudes, e que muito me alegra dar destaque central em qualquer CV, é o facto de ser teimoso como uma porta, mas uma daquelas portas empenadas e chiadoras. Acho que me dá carácter e um toque irresítivel de charme, além de me tornar numa pessoa impossível de lidar quando imbico numa direção. Por isso é que quando, poucos dias após a minha segunda operação à coluna, decidi ir ao DIE - Dark Immersive Experience, a nova produção do Projeto Casa Assombrada, não houve quem me conseguisse demover.

Em minha defesa já tinha recebido o bilhete há imenso tempo porque era a prenda que tinha pedido para o meu dia de aniversário, e não era a porcaria de uma hérnia e de um pé de abano que me iam condicionar a celebração dos meus 38 anos. Mas como, de vez em quando, sou uma pessoa consciente, falei primeiro com o pessoal fofo do Projeto Casa Assombrada e perguntei se não haveria obstáculos no caminho porque depois da cirurgia tinha ficado com dificuldades de locomoção e um equilíbrio periclitante, e se por um lado não me queria esbardalhar todo no meio do percurso por outro também não queria estragar a experiência do pessoal que estivesse no meu grupo.

E foi neste momento que eu me devia ter lembrado que o mundo é um local muito subjetivo, e o que é uma refeição maravilhosa para uns pode ser dois dias sentados na sanita para outros. Ah e tal, que não vai haver problema nenhum, que não existem obstáculos no caminho, que como a experiência é totalmente às escuras agarrado a uma corda o percurso também é atravessado muito devagarinho, que posso vir sem problema algum. Quando cheguei voltei a referir que estava manco, e disseram-me que até já tinham tido uma pessoa só com uma perna a fazer a experiência, o que me fez pensar que pronto, eu estava mais parecido com a minha mãe do que queria admitir e estava-me a preocupar em demasia.

Sejamos honestos, não me arrependi nada de ter ido e voltava a ir sem pensar duas vezes, mas desde quando é que ter de atravessar um túnel de gatas não é considerado um obstáculo? Ou uma pessoa ter que no meio do escuro se sentar e voltar a levantar agarradinho aos colegas de corda é algo fácil para quem não sente metade da perna? Ou ser arremessado para outra sala por um membro do staff por estar a andar em velocidade de caracol é exequível para quem não consegue correr? A minha sensação é que o percurso era para ser feito com uma perna às costas, por isso nem quero pensar como é que foi a experiência para a pessoa que só tinha uma...

A permissa do DIE era a de ser a primeira experiência imersiva em Portugal com áudio a 360º, onde a pessoa vai ouvindo uma história e recebe ordens enquanto se tenta orientar na escuridão total através de uma singela corda, assim meio áspera para mãos de donzela como as minhas, e pelo meio é confrontado com pessoas a pregarem sustos e a tentarem soltar-nos gritos das entranhas. Ora a premissa era fantástica, mas o facto dos auriculares terem uma luz azul fazia com que uma pessoa não estivesse verdadeiramente na escuridão total, o que se por um lado para mim foi fantástico porque me aumentou logo o equilíbrio, por outro acabou por tirar alguma da piada àqueles 30 minutos passados num complexo do Nirvana Studios.

Se não quero deixar de referir que fui sozinho (o Cara-Metade odeia este tipo de coisas) e acabei por ficar num grupo de pessoal que se foi conhecendo neste tipo de atividades e até me convidou para o grupo de WhatsApp, o que eu quero dar destaque é ao facto do DIE ter sido para mim mais intensamente erótico do que verdadeiramente assustador, o que paradoxalmente me deixa um bocadinho assustado. É que aparecerem do escuro e agarrarem-me pelo pescoço enquanto respiravam sofregamente para cima de mim deixou-me mais excitado do que aterrorizado. E apesar de haver pessoas a gritar de pânico por estarem a serem borrifadas com substâncias não identificadas, eu pessoalmente achei super refrescante, tipo férias num resort no México quando estás na piscina e os animadores vem-te dar tequila à boca. Bem sei que nesta fase do campeonato para me arrancarem um grito de terror só atirando-me com uma barata para cima, mas confesso que não estava à espera de descobrir este meu lado assim mais kinky ( terá sido um efeito secundário da operação?). Por isso pessoal do Projeto Casa Assombrada, se um dia o terror deixar de dar dinheiro, podem sempre começar a organizar outro tipo de festas em Lisboa. Eu não me importo de ir, apenas para fazer uma review honesta claro....

DIE - Projeto Casa Assombrada

 

Malta ou uma Chapada nos Pré-Conceitos Idadistas

João Eating the World!, 01.02.25

Visitar mais de 100 países [3/100]

Uma das coisas boas de uma pessoa não ter gozado todas as férias em 2024 é que, quando olha para os dias acumulados que tem para gastar em 2025, fica com uma excitação miúdinha a pensar que vai poder ir a todos aqueles destinos que sempre quis visitar e que ninguém lhe vai por a vista em cima no trabalho. Só que depois essa mesma pessoa lembra-se do ordenado que recebe e o entusiasmo fica assim um bocadinho mais resfriado, mas nada que não se possa contornar passando mês e meio a fazer a fotossíntese e a poupar nas compras do supermercado, ou, no meu caso, a identificar as melhores oportunidades de voos e hóteis.

E foi assim, ao encontrar um voo baratíssimo de ida e volta pela Ryanair, que decidi passar o fim de janeiro em Malta. Sim, eu bem sei que a Ryanair é Low-Cost e tem uma data de limitações, mas tendo em conta o meu orçamento sou muito capaz de prescindir de alguns luxos, e na verdade não é assim tão mau viajar com eles, basta seguir algumas regras de ouro. Primeiro, se viajarem acompanhados, não existe amizade ou amor ou laços familiares que valham os 8 euros que tem de pagar para irem em lugares juntinhos. Eu e o Cara-Metade ficamos separados por umas 15 filas e sobrevivemos às 3 horas de viagem, porque sejamos honestos, o mais provável era passarmos a maior parte do tempo a dormitar ou a olhar para o telemóvel (relação triste sem comunicação eu sei) e se o avião fosse para cair não era por estarmos agarradinhos que nos íamos safar. Assim poupámos um dinheirito que já deu para amortizar parte do valor do cartão para os transportes públicos de Malta que é caro que dói. Em segundo vão prevenidos com comes e bebes, porque os preços dos géneros alimentícios no avião são um verdadeiro roubo à mão-armada. Eu costumo sempre levar umas barritas ou uns frutos secos para o caso de me dar um ratito, e depois de passar o raio-x encho a minha garrafa com água num dos fontanários disponíveis. Em terceiro não sejam somíticos com a bagagem de mão. Normalmente o que eu faço com o Cara-Metade é comprarmos uma mala de mão extra para os dois, sendo que um de nós acaba por ter priority no boarding (ou seja, um de nós passa de pobre para pobre-premium), mas aproveitem esta dica e juntem-na logo que vos aparecer essa oportunidade no site ao fazerem a vossa compra. Se deixarem para o fim, vai-vos aparecer outra vez a oportunidade de juntar uma mala, mas o valor vai ser muito mais alto (pelo menos é o que me tem acontecido). A pior coisa que vos pode acontecer é acharem que estão a poupar uns euros e quando vão embarcar são convidados a verificarem se a vossa bagagem tem as medidas corretas. E caso não tenha, a conta vai ser salgada. Por fim, resistam às compras de impulso. Vão-vos acenar com comida, com perfumes, com raspadinhas!!!, mas o segredo é não fazerem contato visual para não se sentirem tentados a sacarem do cartão e a comprarem o último lipstick da Kylie Jenner.

Mas voltemos a Malta, que foi a razão deste post. Apesar de ter comprado a viagem e reservado o hótel com alguma antecedência, digamos que foi poucas horas antes do voo que me decidi preocupar com alguns detalhes, quiçá, importantes. Por exemplo, qual era o tempo que estava lá, se precisava de passaporte ou se bastava o cartão de cidadão e se por acaso tinha de levar algum adaptador para as tomadas.

Só posso aconselhar visitar Malta em janeiro, porque o tempo esteve fantástico, super agradável, com muito sol, e o número de turistas que andavam pelas ruas era razoável. Claro que o meu objetivo não tinha sido ir fazer praia, mas só de pensar na multidão que deve estar em julho e agosto quase que fico com um ataque de pânico. Outra coisa que gostei foi que começava a escurecer por volta das 17:30, e digo que gostei porque quando estive na Sérvia às 16.30 já era escuro como breu. De Portugal para Malta só precisei do cartão de cidadão, mas não posso deixar de recomendar que levem também o Cartão Europeu de Seguro de Doença. Agora o que me tramou foram as tomadas elétricas. Em Malta as tomadas são do tipo G, ou seja, aquelas de três pinos tal como existem no Reino Unido, por isso ia precisar de levar um adaptador. E a questão é que eu tinha um adaptador, só que a porcaria do bicho não permitia, devido a umas saliências do demónio que não se percebe porque é que lá foram postas, que eu conectasse a ficha do meu portátil, por ser bojuda demais. Ainda perdi uma boa hora a tentar encontrar soluções quando, após já estar suado de nervoso, decidi que ia confiar na sorte e se fosse preciso comprava um novo adaptador na ilha. No entanto os deuses sorriram-me e o hotel tinha uma ficha ao pé da cama que estava adaptada para os pobres europeus que usam fichas do tipo C.

Ora esta minha falta de planeamento, muito ao estilo de go with the flow, fez com que não percebesse que em Malta existem duas línguas oficiais, o Maltês e o Inglês. Por isso imaginem a minha cara quando, ao descansar num banquinho, uma senhora dos seus oitenta anos, mete conversa a falar inglês super correto, super fluido, a usar palavras que eu nem sabia que existiam. O meu primeiro pensamento foi que a senhora devia ter tido um emprego internacional ou coisa do género, porque todos sabemos que o pessoal mais velho não fala inglês, certo? Ou pelo menos é muitas vezes esse pré-conceito que temos na nossa cabeça, que as pessoas mais velhas não sabem línguas, que não conseguem mexer na tecnologia, que não podem fazer desporto e que, uma pessoa benze-se só de pensar, obviamente não fazem sexo e o máximo de interação intíma é um daqueles chochos sem língua. É quase como se nos tivessem implantado a ideia que as gerações mais velhas apenas servissem para jogar ao dominó e ver os programas da manhã.

Pois em Malta não houve idoso que encontrasse que não dominasse o inglês. Na rua, nos restaurantes, dentro dos autocarros, sempre que ouvia uma pessoa de idade a falar inglês ficava assim admirado, como se tivesse levado uma chapada de surpresa no meu pré-conceito idadista que podia jurar a pés juntos que não tinha. Achava eu que era uma pessoa progressista, mas visivelmente ainda tenho muito trabalho de desconstrução pela frente de forma a não considerar, mesmo que inconscientemente, que os outros são limitados só por causa da sua idade. E talvez um dia consiga imaginar, de uma forma natural, que aquela senhora de cabelos brancos, com artroses nos joelhos, que sobe lentamente as ruas com o seu carrinho de compras, ao chegar a casa vai por os pés de molho, colocar creme nas articulações e mimar-se com um vibrador de duas cabeças.

 

Fonte dos Tritões - Valetta

É Tur...É Turbu...É Turbulência!

João Eating the World!, 24.01.25

Visitar mais de 100 países [2/100]

Este post poderia ser acerca de Belgrado, capital da Sérvia e último país do meu périplo de 2024 pelos mercadinhos de Natal. Poderia ser uma reflexão sobre como foi uma cidade que não me encantou, talvez por a ter sentido brutalista como a sua arquitectura, apesar de ter das igrejas mais maravilhosas que alguma vez vi (uma pessoa entra nelas e quase que tem de apanhar o queixo do chão); ou pelo facto do sistema de transportes públicos me ter deixado à beira de um esgotamento nervoso, pese embora tenha-me dado a conhecer o Fuze Tea de Frutos do Bosque, uma das coisas mais maravilhosas que levei à boca nos últimos tempos.

Belgrado

Belgrado

Mas não, este post é sobre como quase morri a voltar de Belgrado pela Air Serbia, companhia que nunca na vida suspeitara que fizesse voos diretos para Lisboa.

Para vos dar contexto, esta minha viagem aos mercados de Natal aconteceu sensivelmente duas semanas após a minha segunda operação, e digamos que não foi consensual, visto que a minha família achou que era cedo demais para viajar, apesar da minha médica ter dado uma luz (semi)verde, desde que não passasse o voo todo sentado e adotasse medidas que minimizassem o risco de um possível tromboembolismo. Ora, como a minha primeira operação deixou-me sem ir ao Sri Lanka (sei que já contei isto no post sobre a minha ida para a Áustria, mas é para verem como fiquei traumatizado) recusei-me terminantemente a ficar em casa e lá fui eu munido de meias de compressão e uma vontade louca de fazer exercício a bordo do avião.

E foi com as mesmas meias de compressão calçadas que, a meio da viagem de regresso a Lisboa, a minha vontade de fazer exercício, aliada à minha bexiga do tamanho de uma noz, fez com que me levantasse para ir à casa-de-banho. Depois de fazer o que tinha a fazer (acho que não preciso de vos dar detalhes) decidi ficar no fundo do avião a fazer uns exercícios, já que os carrinhos dos comes e bebes tinham começado a circular e impediam a passagem de pessoas com pandeiros do tamanho do meu.

Todo eu dei uma classe de ginástica no fundo daquele avião. Foram uns bons 20 minutos a alongar pernas, a esticar braços, a levar joelhos ao peito (ou a tentar levar joelhos ao peito), a rodar ombros, a dizer que sim e que não e que talvez e que nem pensar com a cabeça... basicamente tinha tudo para ser um segmento da Praça da Alegria, daqueles do vamos fazer exercícios com uma cadeira e um pacote de arroz carolino.

Ora depois de ter queimado umas boas calorias, vi que o carrinho dos comes e bebes tinha passado finalmente pelo meu lugar e fui, todo ufano e ligeiramente suado, sentar-me.

Minha gente, não tinham passado sequer dois minutos quando o avião sacudiu de uma forma indescritível, que me fez o cu levantar do assento. E não foi apenas um solavanco, foram intermináveis segundo de uma turbulência como eu nunca tinha sentido. Voaram bebidas para cima de passageiros aterrorizados, os comissários de bordo correram a sentar-se no braço da cadeira mais próxima abandonando as sandes de mortadela e, para horror dos horrores, abriram-se compartimentos da bagagem de mão. Na verdade abriu-se um compartimento, que era exatamente aquele que estava apontado à minha cabeça, e nesse momento só imaginei o meu epitáfio: "Aqui Jaz João, que morreu depois de ter levado com uma mala da Samsonite na cabeça".

Felizmente a turbulência não durou muito e, tirando as nódoas de coca-cola, não houve estragos a contabilizar. Mas não pude deixar de pensar - E se no momento da turbulência ainda estivesse em pé a fazer os exercícios? E se no preciso exato momento em que estivesse a dobrar o joelho, agarrando o pé para que ele tocasse na nádega, o avião tivesse sacudido todo? O mais certo era ter sido arremessado contra o teto do avião, ou ter-me espatifado contra as cadeiras da frente. A realidade é que por questão de escassos minutos fintei uma possível morte certa e uma definitiva aparição num alerta CM.

Foi com este pensamento em mente que me mantive colado à cadeira durante o resto do voo, ignorando o facto da minha bexiga estar novamente cheia, mas fazendo a cada dez minutos uns ligeiros exerxícios com os pés e com as pernas para ativar a circulação sanguínea. É que se não tinha morrido da turbulência também não ia morrer de um tromboembolismo!

 

 

SOS | Batatas Fritas mantidas cativas por Irene

João Eating the World!, 19.01.25

Visitar 1001 restaurantes [1/1001]

Nunca pensei que num luminoso sábado de janeiro, em plena Amadora, me fosse deparar com uma situação digna de ser comentada na Crónica Criminal de um qualquer canal televisivo generalista. Hoje, passadas quase 24 horas do sucedido, ainda sinto um nó na garganta ao revisitar os acontecimentos que aqui vos relato.

Tudo se passou na Cervejaria Bogotá, espaço de restauração que certamente encantaria a Joana Amaral Dias, onde o dinheiro físico é rei já que o multibanco não é permitido. Talvez isso se deva ao facto da Bogotá ter sido fundada em 1943, e todos sabemos que as pessoas mais idosas não são assim muito adeptas das tecnologias (espero que o mau pai, nascido em 1945, não leia isto, caso contrário posso esperar levar um papo-seco na fuça da próxima vez que o vir).

Se subir para um banco alto cai fora das vossas habilidades físicas, ou se levarem uma cotovelada amistosa da pessoa do lado deixa-vos amargos até ao final do mês, então este não é o local para irem, porque aqui lugares só mesmo ao balcão. Confesso que só muito recentemente desenvolvi o gosto de estar na barra, muitas vezes espremido, outras quantas a pensar que ia cair do assento devido àquela caneca de cerveja fresquinha, mas com a alegria de quem se vê com as narinas inundadas de sabores deliciosos, de quem ouve as piadas de cunhado dos empregados cinquentões e que se perde a olhar para a comida dos vizinhos, pensando se ainda caberá mais um prego, a escorrer pecaminosamente calorias.

Mas voltemos ao relato dos acontecimentos que levaram à escrita deste post. Estava eu sentado na Bogotá, com a minha tulipa de cerveja preta, depois de já ter morfado uma sopa de grão e espinafres e dois salgadinhos (o croquete bate aos pontos o rissol de camarão), quando chega o prego no pão com queijo. Prontamente, antes mesmo de questionar, o empregado diz que as batatas ainda estão a fritar, mas não tardarão. Melhor, pensei eu para os meus botões (ou para o meu fecho éclair, que não estava com nada de botões), vão vir fresquinhas e quentinhas.

Ataco o prego sem misericóridia. A carne tenrinha, deliciosa, derretendo-se na boca. Rejeito o picante e a mostarda - a combinação de carne, queijo e pão é suficiente para me fazer ter um espasmo nas pernas. A vizinha do lado olha-me de soslaio, suspirando pelos meus pecados enquanto come uma taça a transbordar de salada de frutas. Em menos que um Pai Nosso e uma Avé Maria o prego desaparece, e nada de batatas. Questiono o empregado sobre se as mesmas estarão para vir, e com a desculpa mental de que não faz sentido comer batatas fritas a seco, mando vir um prego com bacon.

É nesse momento que o empregado cinquentão simpático se transforma em frente dos meus olhos num membro de um grupo especial de intervenção e marcha até à porta da cozinha, gritando pelas batatas à Irene. Vozes abafadas chegam do outro lado da porta, e não conseguindo perceber em detalhe a conversa, assumo que Irene está a negociar as condições de resgate dos meus tubérculos mergulhados em óleo. Aperta-se-me o coração, pensando naqueles palitos dourados, sozinhos e assustados, quando tudo o que queriam era estarem a nadar no meu suco gástrico. Olho para os lados tentando perceber se alguma alma caridosa irá juntar-se à causa fazendo pressão para que Irene liberte as batatas fritas mantidas cativas, mas tal não é preciso. O empregado dirige-se em passos rápidos, com um sorriso triunfante e um pires de fumegantes louras na mão.

Suspiro fundo de alívio fazendo a vizinha benzer-se em desespero, enquanto enfio três batatas na boca e os olhos se me enchem de lágrimas. Talvez por todo o stress da situação. Mais provavelmente pelo facto de elas estarem quentes como o caraças...

Cervejaria Bogotá

 

 

 

 

Quem matou a Laura?

João Eating the World!, 02.01.25

Ver 100 filmes que tenham estreado antes de 1986 (o ano em que nasci) [1/100]

Quando era mais novo era assim ligeiramente gastador, facto facilmente explicável por ter um salário simpático e viver em casa dos meus pais, ou seja, zero de despesas. Uma das minhas atividades favoritas depois do trabalho era ir à FNAC e deixar o cartão de débito assado, comprando tudo e mais alguma coisa que estivesse em promoção, porque na verdade quem é que consegue resistir a uma bela promoção?

Diria que o momento de mudança para mim foi quando estava a comprar um creme como prenda de aniversário e o meu cartão deu "Não Autorizado". Quando fui confirmar ao multibanco e descobri que tinha uns míseros 3 euros de saldo decidi que tinha de ser mais contido financeiramente, e toda uma transformação se deu. Digamos que quem me conhece hoje em dia, sabendo que sou assim a atirar para o fuinha, teria dificuldade em acreditar que já andei a esbanjar euros como um menino grande.

Uma consequência da minha saga de compras impulsivas foi ter ficado com o quarto na casa dos meus pais repleto de coisas que nunca sequer abri, na esperança de que o conteúdo me entrasse no cérebro via osmose. Mas como nunca é tarde para acarinhar as aquisições do passado, decidi começar pelo visionamento dos filmes acumulados numa estante (sem pó, que a minha mãe nisso não brinca em serviço).

O primeiro que me veio à mão ainda tinha o plástico original a revestir a caixa do DVD, tendo sido comprado no maravilhoso ano de 2011.. Trata-se de Laura, um filme noir de 1944, realizado por Otto Preminger e onde literalmente brilha Gene Tierney (tudo gente que eu não conhecia, mas uma pessoa não morre inculta).

Se gostarem de thrillers Laura é o filme para vocês, porque a última vez que eu vi tantas reviravoltas em tão pouco tempo foi quando decidi passar 5 minutos da minha vida a olhar para a máquina de lavar roupa. Afinal quem matou Laura? A tia? O futuro marido? A criada? Ou foi uma conspiração levada a cabo pelos vendedores de castanhas?

Outra coisa boa deste filme é que não há cá encher chouriços, mal o filme começa é logo a desbravar caminho e é sempre tudo em ritmo acelerado, o que faz com que uma pessoa tenha de estar um bocadinho mais concentrada e não possa estar a fazer scroll no Instagram ao mesmo tempo.

Por fim, e podem-me chamar velhote de 95 anos que acha que antigamente é que era bom, é refrescante ver um filme onde existe um claro teor de sedução sem haver necessidade de as pessoas estarem todas nuas a balançar pedaços do corpo na cara dos outros. Nada contra quem faz, que hoje dia a nossa liberdade é mesmo para isso, para fazermos o que nos der na gana, mas acho que existe alguma beleza na imaginação da antecipação, e Laura conseguiu fazer com que todos se apaixonassem por si, mostrando não mais do que um ombro.

Quem matou a Laura?