Copinho de Leite no Burguer King?
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Se eu vos disser que bebi um copo de leite no Burguer King provavelmente vão achar que eu fumei qualquer erva aromática fora de prazo e comecei a alucinar. Ou que estou a armar-me em espertinho e afinal bebi um milkshake. Ou pior, que me tornei uma pessoa intragável e fiz um escândalo de todo o tamanho até me trocarem a Fanta de laranja por um 200 ml de leite meio gordo. Mas não, limitei-me a pedir um menu especial que vinha acompanhado de um copo de leite. E de tâmaras. E de chebakia.
Contextualizemos. Visitei Marrocos, mais especificamente Tânger, durante o Ramadão. Pelo facto do Islão se basear no calendário lunar, o Ramadão calha numa data diferente todos os anos, podendo durar entre 29 e 30 dias. Durante esse período os muçulmanos praticam um ritual de jejum, abstendo-se de comer, beber, fumar ou ter relações sexuais desde que o sol nasce até ao momento em que se põe.
Durante este período existem duas refeições-chave para quem está a jejuar: o Suhoor que é consumido antes do nascer do dia, e o Iftar (ou Ftour, termo mais utilizado em Marrocos), que permite quebrar o jejum depois do sol se por. E foi um menu especial de Ftour que encontrei no Burguer King por um preço muito, mas muito simpático.

Por aproximadamente 7 euros tive direito a hambúrguer com bebida e batatas + um acompanhamento + um gelado + uma caixinha com tâmaras, chebakia (um doce à base de sésamo) e um copinho de leite.
Nunca na vida tinha pensado comer tal combinação no Burguer King, mas a verdade é que além do simbolismo existe uma vertente nutricional que simplesmente faz sentido. As tâmaras oferecem energia rápida, o leite hidrata e repõe nutrientes e a chebakia além de conferir um toque (extremamente) doce e festivo, concede imensas calorias. Por isso expectavelmente seriam as primeiras coisas a comer durante o Ftour, mas eu como bom turista desconhecedor comi no fim, já a rebolar de todo o resto da comida...
Por momentos quando pedi o menu pensei que poderia ser visto como uma ofensa cultural (hoje em dia nunca sabemos se inadvertidamente podemos ferir suscetibilidades), mas a jovem que me atendeu foi extremamente simpática. Lá consegui fazer o pedido com o meu francês rudimentar (sei dizer pain au chocolat e omelette du fromage e pouco mais) porque de árabe (por agora) não pesco nada (está na minha bucket list!) e no fim ainda recebi um voucher para um mês grátis de um serviço de streaming árabe. Confesso que no princípio não estava muito recetivo a ficar com tal oferenda, mas a moça desarmou-me com um sorriso e um "C'est gratuit".
Mal ela sabia que o meu problema não era tanto o preço, mas mais o medo do Henrique Feist saber que eu tinha vindo de férias para me meter no hotel a ver televisão e ainda ser achincalhado num qualquer podcast....

